Peru, onde se respira cultura ancestral
O ar é pesado e o céu nublado. Isso porque a cidade está sobre um deserto que fica, literalmente, à beira-mar. O Pacífico, que banha a costa limenha, traz a famosa e gélida Corrente de Humboldt, um fenômeno que resfria não só a água como o ar, dificultando a formação de nuvens e outra coisa estranhíssima: não chove em Lima! Não chove mesmo, há anos. Mas chuvisca de vez em quando. É o que eles chamam de "garua", ou garoa.
A costa de Lima, boa parte incluída nos Malecóns de Miraflores, Barranco e San Isidro, fica a uma altura de aproximadamente cem metros da cidade proporiamente dita. Ou seja, é como se a cidade estivesse toda numa cobertura à beira-mar. Ela começa no topo das falésias e entre ela e o mar apenas uma larga avenida e várias áreas de esportes e lazer ao longo do litoral.
Se de um lado a cidade é banhada pelo mar, do outro é "protegida" pela Cordilheira dos Andes. Acontece que essa barreira natural impede a passagem da umidade vinda da selva amazônica. Somando a isso a alta poluição atmosférica provocada pelo trânsito caótico, o resultado é um ar realmente esquisito, mas com que em pouco tempo a gente se acostuma.
Outra surpresa é a limpeza da cidade, pelo menos nas áreas mais turísticas, claro. Não vi lixo nenhum nas ruas. Zero!
Surpreendente também a quantidade de parques em Lima. Arborizados, bem-cuidados e sempre bastante frequentados.
O Parque Kennedy, bem no coração de Miraflores, é conhecido como o Parque dos Gatos. Ali vivem dezenas de gatinhos, mantidos por um grupo voluntário "de defesa felina" com o apoio da prefeitura do bairro. É muito interessante passear por lá observando os gatinhos se espreguiçando enquanto os trabalhadores seguem suas vidas vendendo pinturas e comidas de rua. Os gatos têm casinhas, comida e bastante água. Vidão!
No primeiro dia já procurei o Parque dos Gatos porque sabia que era bem perto do El Farolito, onde me hospedei. Esse Parque, o Kennedy, é como uma praça bem comprida que se liga a outro parque (9 de Julio) e ao seu redor estão vários bares, restaurantes, sorveterias, lojas e também um Centro de Informações Turísticas. Guarde esta informação, voltarei a falar do Centro de Informações Turísticas.
Andando pelo parque em direção à Bajada Balta, chega-se ao Malecón de Miraflores e, mais especificamente, ao Parque del Amor, um dos pontos turísticos mais visitados na cidade. E há uma razão: o lugar é muito legal. Primeiro porque de lá temos o espetáculo daquele mar imenso lá embaixo, no meu caso foi a primeira visão do alto da falésia. Depois porque há neste parque uma imensa estátua de um casal se beijando (seria o próprio artista, Víctor Delfín, beijando sua esposa, e diversos muros e bancos enfeitados com mosaicos como no Parque Guell, em Barcelona. Tem lugar para sentar, comer e tomar uma bebida observando o pôr-do-sol.
Se estiver disposto, uma dica é caminhar pelo Malecón em direção ao bairro de Barranco. No meio do caminho você vai ver um restaurante construído num deque vários metros pra dentro do mar, o Rosa Náutica e um shopping center totalmente encravado na falésia, o Larcomar.
Barranco é o bairro boêmio e de artistas, em Lima. Me inscrevi numa excursão a pé gratuita e fui conhecer um pouco do bairro. Essa excursão peguei no Centro de Informações Turísticas (olha ele aí!). A gente paga uma passagem de ônibus normal e vai com um grupo junto com o guia até Barranco. Lá somos levados a conhecer os pontos turísticos, a ver o pôr-do-sol no Malecón, visitar galerias de arte, ver uns murais coloridos pontados por jovens artistas locaials e até tirar foto com uma estátua de Mafalda doada.pela Embaixada da Argentina ao Peru.
Por falar em comer alguma coisa, claro que uma viagem ao Peru tem que ter um capítulo especial dedicado à gastronomia. Ali se come muito bem e se come muito. Digo isso porque todos os pratos que pedi nos doze dias que passei lá eram enormes. Por mais gostosos que fossem e por mais fome que eu tivesse, raro foi o prato que consegui terminar.
O mais interessante é a variedade dos cardápios. Se você é de carne, eles têm o Lomo Saltado, que são tiras de carne salteadas na panela wok com verduras e molho acompanhado por batatas e arroz. Uma delícia! Se prefere peixe, peça Ceviche. Hummmm! Se gostar mais de frango, vá de Ají de Gallina, uma espécie de estrogonofe com um tempero super delicioso.
Entre as frutas, e sucos e sorvetes, me apaixonei pela Lúcuma. Uma fruta que lembra o sapoti, por dentro, sendo que mais alaranjada. Tem um sabor que os peruanos dizem se aproximar do caramelo, eu não consegui decifrar, mas às vezes lembrava também um pouco abacate e banana.
Ah, tem também a chicha morada, que é uma bebida feita com um milho roxo, casca de abacaxi, marmelo, cravo da índia, canela, limão e açúcar (refrescante!).
Na seara dos alcoólicos, pisco sour é a bebida deles. Trata-se de um drinque feito com pisco (aguardente de uva), limão, açúcar, clara de ovo, xarope e umas gotinhas de amargo de angostura.
Se tiver oportunidade, não deixe de ir a um mercado de comida, como o Central, pra ver as frutas, grãos e verduras. Destaque para a variedade de batatas e milhos!
Dicas de lugares legais pra comer (todos próximos ao Parque Kennedy, em Miraflores):
Al toke pez (peça um combinado, que vem com ceviche, arroz de marisco e chicharrones, frutos do mar empanados).
Siete Sopas (peça Arroz Chaufa, um mix de linguiças com arroz frito no wok, ou Seco Norteno, uma costela ao molho com arroz branco e purê de batatas).
La Lucha Sanguchería (sanduíches diversos)
Mango, no Shopping Larcomar (Ají de Gallina!)
Voltando aos passeios, não deixe de ir ao Museo Larco e ao Mali (Museo de Arte de Lima). Me surpreendi com os dois e, se possível, procure uma visita guiada (eles oferecem gratuitamente e faz toda a diferença). Ambos os museus têm acervos incríveis, principalmente de cerâmicas produzidas no Peru desde muito antes dos incas. O Larco, além do acervo noraml, tem um galpão com cerâmica do chão ao teto, guardadas em estantes e abertas à visitação. Tem também uma Galeria de Arte Erótica, também com peças feitas milhares de anos atrás. Pra completar, a área externa do Museo Larco é uma maravilhoso jardim de buganvílias de variados tons de vermelho e laranja. Um loucura de lindo!
Aí tem as ruínas de templos sagrados de antigas civilizações, como o sítio arqueológico Huaca Pucclana, onde se vê o que sobrou de construções de quase dois mil anos, feitas em tijolos de adobe colocados lado a lado, como livros numa estante, para evitar efeitos de terremotos.
Falando de Peru, é inevitável falar de artesanato. A produção têxtil utilizando algodão e lã de llama e alpaca é impressionante. Existe uma rua, chamada Petit Thouars, também bem perto do Parque Kennedy, que é tomada por mercados de artesanato, um do lado do outro. São centenas de boxes vendendo roupas de frio, bolsas, carteiras, necessaires, bichinhos de pelúcia, joias e todo tipo de souvenir. Uma coisa de louco pra quem gosta de artesanato, uma festa para os olhos de qualquer pessoa.
Voltando a falar do Centro de Informações Turísticas, de lá também me juntei a um grupo para conhecer o centro histórico de Lima. É um bairro bonito, tem uma Plaza de Armas como toda capital sul-americana, com catedral e sede dos poderes, prédios históricos e ruas de comércio para pedestres. Tem também o Convento de São Francisco de Assis, onde se pode visitar catacumbas com centenas de esqueletos (especialmente crânios e fêmures) de pessoas enterradas no subsolo. É um passeio por túneis subterrâneos, meio fúnebre com todas aquelas caveiras expostas em nichos, mas valeu a pena conhecer.
Outro passeio muito turístico é ao Parque de la Reserva para ver o Circuito Mágico de Águas. É um lindo parque, muito bem-cuidado, que tem várias fontes de água. Em determinados horários, à noite, acontecem espetáculos de fontes com luzes coloridas e música. Lá também fuciona um parque de diversões, tem trenzinhos e muitas barraquinhas de comidas de rua. Foi uma ótima oportunidade para observar as pessoas se divertindo com suas famílias num domingo qualquer.
Em Lima me movimentei o tempo todo a pé ou em Uber. O Uber é super tranquilo e acredito que tem um preço bem similar ao Brasil. De uma forma geral, achei as coisas com preços bem parecidos com os nossos. Não vi nada barato, pra falar a verdade. Livros, por exemplo, achei absurdo! Um que me interessou cuatava 123 soles (uns 190 reais), enquanto no Brasil poderia ser comprado - em espanhol! - por 129 reais!
Depois que fui a Cusco passei mais dois dias em Lima e aí fiquei num hotel ainda mais bem localizado que o primeiro. Chama-se Hotel Maria Luiza e fica na Pasaje Tello, 241, Miraflores. Este fica numa rua paralela ao Parque Kennedy, muito pertinho de tudo. E também finalmente teve um café da manhã bem melhor que os demais. Recomendo!
Outra vantagem deste hotel é a proximidade do Centro de Informações Turísticas. Sim, porque dali se pode tomar o Expresso Aeropuerto, que por apenas 20 soles (de Uber seria 68!) nos leva confortavelmente ao aeroporto. A mesma coisa vale para ir do aeroporto até Miraflores, com a parada no Centro de Informações Turísticas!!!
Pra terminar, não podia deixar de falar sobre o câmbio. Um sol, no momento em que estava lá, valia 1.491 real. Convertendo (viva o app Conversão de Moeda), com mil reais eu podia comprar 670 soles. A dica que peguei em blogues de viajantes e que deu super certo: leve um cartão internacional (o meu é da Nomad) e saque soles nos caixas eletrônicos do Banco de la Nación, os únicos que não cobram taxas. Muitas lojas, principalmente as dos mercados de artesanato, dão descontos se pagamos em espécie, portanto é sempre bom andar com dinheiro vivo. Ah, nesses bairros turísticos há muita polícia na rua e eu mesma não senti medo em momento algum de ser assaltada.
Observação importante: Durante os dias que fiquei em Lima circulei majoritariamente pelos bairros de Miraflores e Barranco e pontualmente fui de Uber para locais mais afastados. Nessas áreas periféricas vi pobreza, homens puxando carroças, pessoas pedindo dinheiro, ambientes mais sujos, coisas comuns - lamentavelmente - nas cidades sul-americanas.
Cusco
Cusco é outra vibe. Na verdade, o Peru tem três países em um: um costeiro, um andino e um amazônico. Praia, montanha e selva.
Cusco é nas alturas, mais precisamente 3.400 metros acima do nível do mar. Coisa que subestimei e quase me lasquei. Durante dois dias eu passei muito mal, com o chamado "soroche", ou mal de altitude, que tem efeitos diferentes em cada pessoa. Senti dor de cabeça, muita náusea e um cansaço extremo. Passei duas noites vomitando e os dois primeiros dias sem apetite nem disposição, mastigando folha de coca (arghhh!), chupando bala de muna, tomando chás e pílulas contra soroche. O pior de tudo é que estava fazendo muito frio, máximas de 15 e mínimas de até 3 graus à noite.
Tudo bem, no terceiro dia já estava bem melhor e fui bater perna nas ruazinhas do centro histórico. São ruas bem apertadinhas, de paralelepípedo e muitas ladeiras. Pesquisei bastante antes e decidi tomar um Uber até um ponto mais alto do bairro San Blas e de lá só ir descendo pelas vielas até a Plaza Mayor. Foi ótima decisão, consegui conhecer muitos lugares e não me cansar tanto.
Cusco, como foi a capital do Império Inca, tem muita história e muita arquitetura bonita. Pra começar, a cidade tem o formato de um puma. Onde deveria ser o coração do animal está a Plaza Mayor e onde seria a cabeça é um sítio arqueológico chamado Sacsayhuaman,
Como estava "sequelada" com o soroche, resolvi contratar um tour privado de meio dia pra visitar alguns sítios arqueológicos e comunidades de artesãos. Quem me deu a dica da agência foi o Gemini, que por sinal me ajudou demais na viagem (valeu, Gemini!). Foi a Peru-Cusco, que mandou um carro com um motorista e uma guia me pegar no hotel e me levar pra passear com todos os cuidados, sempre no meu ritmo, sem afobação. A cada parada eu e a guia, Zori, descíamos do carro e íamos explorar as ruínas. Ela me ensinou muito sobre a história dos incas.Atención!
Passaporte



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